Testamento
das Velhotas
Na
semana passada, os alunos do 3.º ano da EB1
Serrinha foram os principais herdeiros dos bens deixados por duas
simpáticas Velhotas. O “Testamento das
Velhotas”, texto original do professor António Azevedo, que representou o papel
de notário, foi lido pelas duas testadoras, na presença dos dezasseis herdeiros.
A professora Vera e a professora
bibliotecária encarnaram o papel de duas
velhotas que distribuíram os seus bens por estes alunos por os considerarem
merecedores, alunos muito bem comportados e bons meninos. O testamento, escrito
em quadras, permitiu uma leitura com grande ritmo e animação e apresenta uma forte carga de
brincadeira, induzindo o riso dos ouvintes. No final, os meninos
manifestaram-se muito satisfeitos com os bens recebidos.
Testamento
das Velhotas
Texto original do professor António Azevedo
Aos catorze de fev’reiro
Num
dia sem chuva ou vento
Reunimos os
alunos
Para
ler o Testamento.
Leu
e viu Fátima Marques
Que
estava tudo legal
Que
foi dado a conhecer
Nas
notícias do jornal.
Confirmou
Vera Carreiro
Lá
dos lados de Baião
Que
estava tudo conforme
Segundo
as leis da nação.
Quem
não concordar
Com
aquilo que lhe der
Pode
ir e reclamar
Para
onde ele quiser.
Nunca
ganhará mais nada
Nem
nas notas da escola.
Perde
e vai levar com uma
Moca
de pregos na tola.
Se
ainda não ficar grogue
E
caminhar pelo pé
Vou
desfazer-lhe os miolos
Num
moinho de café.
Aí,
se houver engano
E
ficar cacau com leite
Frito-o
até queimar
Numa
panela de azeite.
Tenho
em casa uns carocitos
E
pevides de maçã
Vai
ser o vosso jantar
Que
tomais pela manhã.
Deixo
a minha saia velha
Que
faz de vestido e véu
Cobre
barriga e pernas
E
deixa o cu ao léu.
Tenho
umas cascas podres
Que
sobraram de um melão
Vou
deixá-las de herança
Ao
meu amigo Simão.
Deixo
um penico furado
Dá
p’ra homem e mulher
Vai
servir de capacete
Para
quem não o tiver.
Deixo
uma bicicleta
Não
tem rodas nem mudança
Vai
ficar para o André
Ir
correr a Volta à França.
Ao
meu amigo Guilherme
Deixo-lhe
a minha bota
Se
der biqueiros nas pedras
Vai
ficar todo janota.
Deixo
umas cuecas rotas
Que
comprei em promoção
Fazei
com elas calções
Podem
servir ao João.
Deixo
umas notas de aluno
Fracos
e insuficientes
Comprai
com elas pedritas
Para
vos partir os dentes.
Deixo
um aluno Calhau
Nada
lhe entra na moina
Nunca
lhe pega a ferrugem
Nem
boné, chapéu ou boina.
Deixo
uns rabos de gatos
Que
dão pincéis de artistas
Para
pintar de vermelho
A
camisola aos portistas.
Aos
amigos benfiquistas
Já
de tacha arreganhada
Deixo
umas latas de tinta
Que
são de cor azulada.
Tenho
um lápis tão velho
Mas
que vale bem por dois
A
Terra ainda era quadrada
E
no ar voavam bois.
Deixo-vos
uma sopita
Que
fiz vai para dez anos
É
feita de caganitas
De
anhos alentejanos.
|
Deixo
em casa umas galochas
Cheias
de água e de pós
Ficam
para a Maria Inês
Ir
nelas a Ferreirós.
O
triciclo de corrida
E
de que tu muito gostas
Deixo-o
para o Tiago
Andar
com ele às costas.
Martim,
dou-te a faca naifa
Já
sem lâmina e sem cabo
Para
tu no Fortnite
Mandares
tudo ao diabo.
Ao
Afonso, deixo bolitas
De
matrecos, futebol
Elas
esticam e encolhem
Como
faz o caracol.
Tenho
arames ferrugentos
Que
dão alianças de oiro
Vou
dá-las ao Eduardo
Que
é um moço casadoiro.
Sei
que se divorciou
Ouvi
agora falar
Conheço
uma velha gorda
Que
quer com ele casar.
Deixo
roído dos ratos
O
capote do meu tio
Vai
ficar para o Dinis
No
verão já não ter frio.
Deixo
um balde com ervas
E
pedritas da estrada
São
para a Margarida
Fazer
uma feijoada.
Guardadas
tenho umas gomas
Lá
dentro da capoeira
Fi-las
de ovos de galo
Para
o Joaquim Vieira.
Deixo
muitas moscas mortas
Num
saco velho e roto
Dou-as
para pataniscas
Para
a Helena Peixoto.
Tenho
um saco de farelo
Que
chegou lá da Suíça
São
para o Afonso Marques
Fazer
pizas de preguiça.
Deixo
para a Beatriz
Um
vestido a la mode
Foi
de uma mulher velha
Que
tinha barba e bigode.
Deixo
uma dúzia de ovos
São
de vaca e carneiro
Dou-as
para omeletas
Aos
meninos do terceiro.
Pendurados
numa couve
Deixo
dois sacos de rede
Enchi-os
de água da chuva
Para
vos matar a sede.
Deixo-vos
um frasco cheio
De
perfume Bosta e Banha
Se
o puserdes em vós
Fogem
todos para a Espanha.
Deixo
um santo de pau:
S. Funil da Perna Alçada
Rezai
com ele nas aulas
E
não aprendereis nada!
Mergulhado
na sanita
Deixo
lixívia e sabão
Põem
preto o leite branco
E
branquinho o alcatrão.
Deixo
umas missas rezadas
E
uma piza mastigada
Mesmo
sem sofrer dos dentes
Nunca
mais comereis nada.
Escrito
o meu Testamento
E
por todos comprovado
Depois
de lido em voz alta
Vai
ser por nós assinado.
Satiricus
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